Olhar para o panorama tecnológico de Angola exige uma visão de "lente dupla": uma que não ignora as duras carências estruturais que travam o país, e outra que vislumbra o brilho da inovação que já começa a pulsar nas mãos da nossa
Não podemos falar de desenvolvimento sem admitir que Angola vive hoje uma profunda desigualdade digital. Se percorrermos as nossas 18 mais 3 províncias, a realidade é desconcertante.
Enquanto em Luanda discutimos a fibra ótica e a agilidade das fintechs, em províncias como o Bié, Moxico ou Lunda Sul, a tecnologia é muitas vezes uma miragem.
A crítica é necessária: o custo da internet em Angola continua a ser um dos mais elevados da região em relação ao salário mínimo, e a qualidade do serviço, em muitos municípios, é inversamente proporcional ao preço pago.
O acesso é, muitas vezes, dificultado por uma infraestrutura elétrica deficitária — sem energia, não há bit. Estudos do MINTTICS e do INACOM confirmam que a infoexclusão é real e atinge sobretudo as zonas rurais, criando cidadãos de “primeira e de segunda classe” no que toca ao acesso à informação.
A introdução acelerada da tecnologia, sem a base da literacia, traz riscos sombrios. Assistimos a um aumento alarmante de crimes cibernéticos, burlas via Mobile Money e a propagação desenfreada de desinformação.
A vulnerabilidade dos nossos sistemas e a falta de uma cultura de cibersegurança robusta podem transformar uma ferramenta de progresso numa arma de exclusão e prejuízo financeiro para as famílias angolanas.
Contudo, é no meio das adversidades que a resiliência angolana se destaca. Sob uma ótica positiva, Angola apresenta-se como um mercado fértil e ávido por soluções disruptivas.
A operacionalização do Angosat-2 surge como um marco estratégico para levar conectividade ao interior profundo, onde a infraestrutura terrestre é inviável.
Todavia, não se pode ignorar o cepticismo público: os elevados custos e o histórico nebuloso do projeto Angosat alimentam debates sobre se estes investimentos visam o desenvolvimento real ou se servem apenas como fachada para a má gestão de fundos públicos.
O desafio é converter este projeto de ‘vitrine’ em resultados palpáveis para o cidadão comum.
O aspecto mais inspirador desta jornada é, sem dúvida, o capital humano. De Cabinda ao Cunene, jovens programadores e empreendedores estão a moldar soluções autóctones para desafios locais — desde plataformas de logística a sistemas integrados de gestão escolar.
A tecnologia, se gerida com visão estratégica, possui o poder disruptivo de permitir o ‘leapfrogging‘ (salto tecnológico), encurtando etapas de desenvolvimento.
Exemplo disso é a Inclusão Financeira: através do telemóvel, milhões de angolanos anteriormente à margem do sistema bancário podem agora transacionar, poupar e integrar-se na economia formal. Simultaneamente, a Educação sem Fronteiras ganha corpo; a digitalização permite que um aluno no interior do Cunene aceda aos mesmos manuais e recursos que um estudante em Luanda, quebrando as barreiras geográficas e democratizando o acesso ao saber.
O futuro tecnológico de Angola não será construído apenas com cabos e satélites, mas com políticas públicas que retirem a tecnologia do pedestal do luxo e a coloquem no balcão das necessidades básicas.
A minha visão como técnico de TI é de um optimismo vigilante. Temos os recursos (Angosat-2), temos o talento (a nossa juventude) e temos a necessidade.
Falta-nos agora a coragem crítica para corrigir as assimetrias regionais e garantir que a tecnologia seja o combustível que levará Angola a uma economia diversificada e inclusiva. O desenvolvimento do país não será medido pelo que Luanda alcança, mas pelo que o município mais remoto consegue aceder.
Referências Bibliográficas
MINTTICS (2023). Livro Branco das Tecnologias de Informação e Comunicação.
Banco Mundial (2022). Angola Digital Economy Assessment: Acelerar a Transformação.
Muanza, F. (2024). Infraestruturas e Cibersegurança: O Desafio das Províncias. (Ensaio Técnico).
UNESCO (2023). Relatório sobre Literacia Digital e Inovação na África Subsariana.
União Internacional das Telecomunicações (UIT/ITU). Estatísticas Globais de Conectividade e Custos de Banda Larga.
Fonte: Primeiro IT
